Oportunidades de Fusões e Aquisições em momento de crise
Neste período de crise há inquestionavelmente oportunidades que se abrem a novos investimentos.Entrevista com Carlos Cipriano, sócio e fundador da nova empresa associada da CCILB, Ingtrust.

Ingtrust 

 

Company team

Carlos Cipriano, Sócio e Fundador da Ingtrust


 


Quem é a Ingtrust? Quais seus principais clientes?

Carlos Cipriano:  A Ingtrust nasceu da vontade dos dois sócios que se conheceram em contexto profissional. Um dos sócios é Contabilista Certificado, e eu sempre desenvolvi a minha carreira profissional na área financeira, desde Auditoria Financeira, passando pelo Controlo de Gestão e Operações, Direção Financeira e CFO. Em meados de 2018 numa simples conversa de almoço, partilhávamos planos e objetivos pessoais de futuro. Houve um encontro de objetivos, daí à estruturação de serviços, processos de negócio, tudo ocorreu de forma muito rápida e focada. Em Janeiro de 2019, constituímos a Ingtrust, oferecendo serviços de Contabilidade, Consultoria de Gestão e Operações e soluções de Finance Interim Solutions. Contamos atualmente com uma carteira de cerca de 40 clientes, maioritariamente PME’s. Contamos ainda com parcerias junto de escritórios de advogados em São Paulo e Rio de Janeiro.

Principais clientes: Grupo Rumos; Caiado Guerreiro Advogados, LIS-Water, Steuromat e SPEM.

Com a gradual consolidação do negócio, e com a proximidade a outros negócios semelhantes, identificamos uma oportunidade de aumentar a nossa exposição ao mercado e ao mesmo tempo passarmos a ser uma empresa com uma dimensão financeira mais robusta. Neste sentido, encontramo-nos hoje num processo de due dilligence bilateral no sentido de fusionarmos duas estruturas. Com esta operação de fusão (estimada para 01 de Janeiro 2021), a nova estrutura passará a contar com uma carteira de sensivelmente 85 clientes. A nova estrutura que está a ser desenhada será objeto de rebranding, comunicação ao mercado e consequentemente o reforço e alargamento de soluções e serviços que presta ao tecido empresarial como um todo e aos nossos parceiros em particular.

Houve um aumento significativo de abertura de empresas nestes últimos anos, porém com o cenário económico impactado pela pandemia do covid-19, como vê a queda e insolvencia de empresas em Portugal?

Carlos Cipriano: No que respeita às insolvências já havíamos no passado mês de fevereiro mencionado, que se  verificava já  uma tendência crescente de insolvências que contrastava com uma diminuição das constituições de empresas. Veja-se que as ações de insolvência de empresas registadas em Janeiro 2020 tiveram um aumento de 35,1% face ao mesmo mês de 2019, com um total de 566 processos de insolvências, segundo um comunicado da Iberinform. As constituições decresceram 23,2% em Janeiro face período homólogo. No primeiro mês do ano foram criadas 5.120 novas empresas, menos 1.548 que em 2019.

Porém, do nosso ponto de vista teremos de colocar um olhar mais macro sobre este tema, considerando Constituições, Dissoluções e Insolvências e aí percebe-se que o saldo do 1º Semestre de 2020 face ao mesmo período de 2019 teve um desempenho francamente negativo para a economia portuguesa.

Veja-se que no respeitante a Constituições, a queda face a 2019 é de 35,95%, tendo no 1º Semestre deste ano sido constituídas 17.534 empresas, menos 9.841 que em 2019.

No campo das Dissoluções também aí os dados são negativos para a economia, tendo ocorrido um aumento 9,25% de dissoluções, com 11.533 dissoluções no 1.º semestre deste ano, mais 976 que em 2019.

Falando em Insolvências, o comportamento face a 2019 é melhor, uma vez que no 1.º semestre de 2020 registou 5.230 insolvências (menos 10,23%), menos 596 insolvências que em igual período de 2019.

Contudo quando queremos compreender o impacto global (Constituições – Dissoluções – Insolvências), facilmente se compreende que em 2019 o saldo resultou numa criação líquida de empresas de 10.992 novas empresas, o que contrasta com 2020 com uma criação líquida de apenas 771 empresas, em grande parte explicado pelo decréscimo das constituições registadas no primeiro semestre.

Não obstante do referido, é importante sublinhar que o semestre que se iniciou no dia 01 de Julho será o período que irá trazer novos dados para cima da mesa, e aí acreditamos que todos estes números (exceção das constituições) irá crescer de forma significativa, com um impacto extremamente acentuado sobre os números do desemprego e sobre a economia portuguesa.

É importante relembrar que no 2.º trimestre de 2020, milhares de empresas tiveram balões de oxigénio, seja pelos apoios extraordinários concedidos pelo estado (desde lay-off, apoio sócios gerentes, entre outros), seja pela flexibilização de pagamento de impostos, seja pela alavancagem obtida junto dos bancos (ao abrigo das linhas Covid-19), seja por moratórias junto de senhorios e instituições financeiras.

Em que medida os apoios dados pelo governo português impulsionarão a retomada da economia e do investimento?

Carlos Cipriano:  Esta temática, é do meu ponto de vista algo discutível, uma vez que, daquilo que é a nossa experiência e sensibilidade, todos os apoios “dados” pelo Governo Português no 2.º trimestre de 2020, foram balões de oxigénio para as empresas. É importante não esquecer que as empresas portuguesas viram, de um dia para outro, a sua atividade económica cair abruptamente e em muitos casos, uma paragem total. Assim, os apoios anunciados pelo Estado foram paliativos dados às empresas, sendo ainda de referir que existe um largo número de empresas que, não obstante de terem os seus pedidos de ajuda validados, ainda não receberam qualquer verba do estado, tendo que pagar as suas contribuições na totalidade. Ainda no campo das medidas tomadas pelo Governo Português, no que se refere linhas de financiamento Covid-19, ocorreram e ocorrem por parte das instituições financeiras processos altamente morosos, com solicitações de contas fechadas de 2019, contas fechadas a abril e Maio de 2020 para efeitos de avaliação de risco. Isto quando as linhas disponibilizadas estão “protegidas” por garantia do Estado. O processo, quanto a mim, conheceu e conhece vários pontos de “entropia” que em muito dificultou e dificulta a vida às PME nacionais na sua manutenção e ainda mais na sua recapitalização.

Não vemos assim a retomada da economia com a rapidez que desejávamos, pois não podemos esquecer que no 2.º semestre, muito dos apoios além de já não existirem ou estarem com linhas esgotadas (como é o caso das linhas de recapitalização das empresas), as empresas veem-se privadas do oxigénio que as manteve à tona neste trimestre que terminou.

A tudo isto é relevante juntar-se uma recuperação económica (pós-confinamento) muito lenta e fortemente dependente do Turismo, o qual tem sido “fustigado” por vários Estados Membros da EU ao incluírem Portugal na lista negra.

Como efeito, as medidas que conhecemos quer aliviaram a dramática situação de tesouraria das empresas portuguesas. Todas estas medidas permitiram e permitem aliviar a tesouraria das empresas, mas à custa do agravamento dos balanços. Empurram o esforço para a frente com juros mas não o reduzem e a sustentabilidade financeira e económica das empresas fica condicionada a um futuro que seja suficientemente forte para pagar estes montantes adicionais de dívida que acrescem ao que já carregavam nas contas. Ora, no panorama português, em que o sector corporativo já chega a esta crise “altamente” endividado, esta pressão adicional será fatal para muitas empresas.

É com algum ceticismo que consideramos que as medidas existentes à data de hoje sejam vistas como ferramentas para impulsionar a retomada da economia e do investimento, uma vez que, do nosso ponto de vista o mercado necessita de mais liquidez para as PME e de forma mais célere. A discussão europeia, sobre o fundo de recuperação (750 mil milhões de euros) e sobre o Quadro Financeiro Plurianual (2021-2027) de 1,1 biliões de euros, tem aqui um papel preponderante na rapidez de decisão e chegada às empresas.


De que forma poderá ser uma oportunidade para investidores que estejam interessados em adquirir empresas que estavam de certa forma a funcionar, mas perante este cenario se descapitalizaram e agora precisam urgentemente de um injeção de capital?

Carlos Cipriano:  À semelhança de todas as crises (esta começou como crise de saúde pública e até biológica), há irremediavelmente lugar a oportunidades de investimento. Seja por necessidades urgentes de capital, seja pela descapitalização das empresas e em muitos casos o investimento em distressed assets, ou seja, empresas economicamente viáveis, mas financeiramente feridas de morte na sua tesouraria.

É neste contexto de necessidade que a solução pode passar por operações de fusão ou aquisição que permitam que a força de uns compensará a fraqueza de outros. como sempre sucede nestes tempos de recessão ou depressão. As fusões e aquisições serão para muitas empresas uma escolha entre continuar ou morrer.

Vemos assim, não só o trimestre que passou, mas sobretudo o semestre que se avizinha e o ano 2021, como períodos propensos a aquisições e investimentos em empresas viáveis que se veem privadas do seu pão: o capital.

Quando se trata de M&A, como a Ingtrust poderá atuar? Como você vê esse mercado num futuro próximo? Acredita de alguma forma que se abrirao novas oportunidade entre Portugal e Brasil? Em que setores em específico?

[Carlos Cipriano]:  Estas questões estão diretamente relacionadas com a questão anterior. A Ingtrust poderá atuar nas áreas de due dilligence contabilística e fiscal.

Num futuro próximo, prevemos um mercado de M&A ativo em número de operações por parte de Private Equity e Venture Capital e uma estabilizado em operações cross-border. Contudo a elevada incerteza global, a grande tendência poderá estará, a meu ver, na realização de fusões entre empresas, pois esse tipo de transações geralmente não envolve elevado dispêndio de capital, “somando-se” faturações, com correspondente reestruturação da estrutura de custos, gerando assim um resultado maior do que a somas das partes, como resultado da criação de sinergias de negócio.

Empresas que estão focadas na continuidade devem olhar esta opção como estratégia de sobrevivência e diferenciação, para colher diferenciais competitivos e uma alavancagem saudável.

Além das fusões, assistiremos com mais intensidade a reestruturações financeiras com a intervenção obrigatória dos CFOs das empresas.

Já no que se refere a oportunidades entre Portugal e Brasil, sentimos que poderão haver relações em ambas as direções. Nos últimos anos assistimos a um crescente número de cidadãos brasileiros a procurar Portugal para viver, ultrapassando já os 150.000 em 2019. Este movimento foi em muito impulsionado pela estabilidade financeira e política de Portugal, pela relação histórica que nos une, pela língua portuguesa, pela segurança, e também por um clima mais favorável ao empreendedorismo (menos pesado burocraticamente falando). Veja-se o “trânsito” imigratório de profissionais qualificados brasileiros para Portugal que ocorreu nos últimos 2 anos, na área de TI, na criação de novos projetos, investimentos  e negócios imobiliários, turísticos e reforço da presença de algumas marcas brasileira no mercado português, e com isso Portugal viu instalar-se na sua praça financeira a XP Investimentos e o ITAU, bem como alguns fundos imobiliários (agentes autónomos) focados no mercado residencial.

Neste período de crise, e como referi anteriormente, há inquestionavelmente oportunidades que se abrem a novos investimentos. A titulo de exemplo um fundo imobiliário brasileiro efetuou um investimento em plena pandemia, tirando assim proveito da oportunidade que a crise lhe apresentou.

Sentimos que nos próximos meses e anos, serão na nossa perspetiva, períodos que poderão ficar marcados por um intensificar de relações entre ambos os países, não tanto na vertente de imigração de cidadãos, mas mais na vertente empresarial, quer sob a forma de investimento direto ou mesmo sobre o incremento e reforço de parcerias comerciais entre empresas dos dois países, nomeadamente num aumento das exportações do Brasil para Portugal e vice versa.

As movimentações de Portugal para o Brasil, na nossa perspetiva, poderão também conhecer alguns desenvolvimentos mas de forma ponderada. Pois se por um lado temos as taxas de câmbio favoráveis a investimentos portugueses no Brasil, um mercado de grandes dimensões, uma língua e história que nos une, por outro lado existe um clima de instabilidade política e económica de grande volatilidade e incerteza, complexidade do sistema tributário brasileiro, assim como fatores de segurança que pesam no momento da tomada de decisão.

Os setores que serão mais privilegiados, do nosso ponto de vista, serão combustíveis, imobiliário, alimentar, minério, ferro e aço. Setores estes, que consideramos tradicionais nas relações entre os dois países. Nos últimos anos e fruto do crescente número de cidadãos brasileiros em solo português, houve um incremento da presença de marcas de moda brasileira em Portugal, com perspetivas de manutenção e algum crescimento de exposição no nosso mercado, abrindo portas para a Europa.

Com a grande dependência do mundo em geral com mercado asiático e como referiu o primeiro-ministro portugues, António Costa: Portugal deverá repensar o seu modelo produtivo e a Europa necessita de se reindustrializar, acredita que Portugal poderá ser um local privilegiado para que industrias brasileiras aqui produzam para entrada na Europa? Por outro lado, empresas portuguesas, poderão tambem vir a aproximar-se do Brasil para aumentar a sua produção na América Latina?

Carlos Cipriano:  Respondendo à primeira questão, sinto que essa movimentação poderá vir a ocorrer, não só por questões de localização, mas também pela complexa estrutura da fiscalidade brasileira, que em muito dificulta o papel dos gestores na aplicação e distribuição de dividendos. Sinto que essa movimentação poderá permitir a empresas e investidores individuais diversificar mercados e riscos de negócio, operando num mercado mais estável económica e politicamente. Não obstante de Portugal ser uma porta para a Europa (um mercado de cerca de 740 millhões de pessoas) e ser inquestionavelmente um fator determinante na estratégia de abordagem à realização de investimentos e implementação de unidades industriais no nosso país, há por outro lado que avaliar o impacto dos custos “produtivos” na geração de resultados e, em que medida, poderão ou não ser determinantes para a viabilidade dos negócios. Contudo Portugal terá de ser lesto na forma como atrai novos investimentos, criando condições tributárias e legais que facilitem e/ou acelerem a tomada de decisão por parte dos investidores brasileiros.

Quanto à segunda questão, considero que movimentações de empresas Portuguesas para o Brasil irão continuar a ocorrer, mas como referi anteriormente, de forma moderada, principalmente no momento que vivemos hoje, onde a escassez de capital aliada a um clima de instabilidade política e económica de significativa volatilidade e incerteza poderão colocar em stand by algumas decisões de abordagem ao mercado brasileiro e dos restantes países da América Latina.

Contudo e finalizando estas duas questões, é de importância extrema que Portugal, Europa, Brasil e América Latina desenhem estratégias de reindustrialização das suas economias e do seu tecido produtivo. Ao longo de vários (muitos) anos assistimos a uma deslocalização da indústria para a China, Tailândia, Indonésia, Malásia, India, entre outros. Deslocalização esta assente em baixos custos de produção, em alguns casos com recurso a trabalho infantil e/ou não cumprimento dos Direitos Humanos. Nas ditas economias desenvolvidas, enquanto as empresas gerem o goodwill das marcas e garantem funcionamento das cadeias logísticas, ficam reféns de um modelo produtivo (que muitas vezes não é controlado pelas marcas) que dificultará uma “nova” deslocalização para países com economias “desenvolvidas”, uma vez que os custos produtivos praticados ou inviabilizam os negócios ou reduzem os resultados a níveis extremamente baixos.

É assim importante uma mudança profunda na mentalidade dos consumidores, dos agentes económicos, dos agentes políticos para que se garantam uma maior sustentabilidade e equilíbrio das economias.


Fonte: Redação


 

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